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Como China e Rússia se tornaram os olhos do Irã na guerra

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Os regimes da China e da Rússia forneceram ao Irã imagens de satélite em tempo real e informações de inteligência que ajudaram Teerã a direcionar ataques contra alvos americanos e israelenses durante a guerra em curso no Oriente Médio, atualmente sob um cessar-fogo temporário.

A revelação, baseada em documentos vazados e em fontes da inteligência ocidental, expõe a retaguarda tecnológica que sustentou a ofensiva do regime islâmico nos dias de conflito aberto.

No início de abril, o jornal britânico Financial Times publicou uma reportagem baseada em documentos militares iranianos vazados, mostrando que a Força Aeroespacial da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) usou o satélite espião chinês TEE-01B para realizar reconhecimento de precisão durante os ataques iranianos lançados em março contra posições dos EUA no Oriente Médio.

O equipamento teria sido adquirido por Teerã em 2024 junto à empresa chinesa Earth Eye Co para ampliar sua capacidade de vigilância e direcionamento militar.

Segundo o Financial Times, o regime iraniano não apenas adquiriu o TEE-01B – que custou à época cerca de US$ 36,6 milhões (R$ 183 milhões, na cotação mais recente) –, mas também passou a contar com suporte técnico e infraestrutura de dados fornecidos diretamente pela Earth Eye Co, responsável pela construção e lançamento do equipamento para o espaço.

De acordo com a publicação, o TEE-01B foi utilizado pelo regime islâmico para monitorar um conjunto específico de alvos militares e de infraestrutura em diferentes países do Oriente Médio que foram atacados pelo Irã durante a guerra.

O equipamento, por exemplo, capturou imagens antes e depois dos ataques iranianos realizados contra a Base Aérea Prince Sultan, na Arábia Saudita, a Base Aérea de Muwaffaq Salti, na Jordânia, e outras instalações militares no Oriente Médio com presença de forças americanas.

O satélite TEE-01B consegue registrar imagens em que objetos de cerca de 50 centímetros podem ser identificados, precisão semelhante à dos melhores satélites comerciais ocidentais e dez vezes superior à do Noor-3, até então o modelo militar mais avançado operado pelo Irã.

Nicole Grajewski, especialista em Irã e pesquisadora associada do think tank Carnegie Endowment for International Peace, disse ao jornal britânico que o fato de o satélite estar sob controle da Força Aeroespacial da IRGC, e não do programa espacial civil iraniano, deixa claro seu uso para fins militares. Segundo ela, o material fornecido pela empresa chinesa foi essencial para Teerã durante a guerra, pois permitia ao regime identificar alvos com antecedência e verificar o sucesso dos ataques.

A cooperação chinesa não se limitou ao satélite adquirido pela Guarda Revolucionária. Uma investigação da emissora australiana ABC, com base em uma fonte da Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos, revelou que a empresa chinesa MizarVision vinha divulgando abertamente, em redes sociais, imagens de satélite aprimoradas por inteligência artificial de bases militares com pessoal dos EUA no Oriente Médio.

O material publicado incluía também dados detalhados sobre aeronaves, sistemas de defesa aérea e posicionamento de ativos navais americanos na região. A MizarVision conta com participação acionária do regime chinês.

Segundo a fonte ouvida pela reportagem, o Pentágono avaliava que a Guarda Revolucionária utilizava esse material para priorizar alvos de mísseis e drones lançados contra países do Oriente Médio.

“Este é um exemplo de uma empresa chinesa fornecendo, acreditamos que de forma maliciosa, inteligência em uma plataforma aberta que alimenta protocolos de direcionamento de mísseis e drones”, afirmou a fonte à ABC. “Isso coloca em risco a vida de americanos e, por extensão, de nossos aliados”, completou.

Ainda de acordo com a reportagem, a MizarVision publicou imagens da Base Aérea Prince Sultan, na Arábia Saudita, nas redes sociais, ao menos meia dúzia de vezes na semana anterior ao início do conflito. Menos de 48 horas após a última postagem, segundo a ABC, a instalação foi atacada por forças iranianas.

Rússia forneceu inteligência ao regime do Irã

Enquanto a China forneceu a “visão” de alta resolução ao regime do Irã na guerra, a Rússia ofereceu inteligência mais estratégica e operacional.

Duas semanas após o ataque de EUA e Israel, em 28 de fevereiro, o jornal The Wall Street Journal revelou que o regime de Vladimir Putin havia expandido o compartilhamento de inteligência e a cooperação militar com o Irã, fornecendo também imagens de satélite e tecnologia avançada de drones para ajudar Teerã a atacar forças dos EUA e aliados regionais.

As imagens, provenientes de uma frota gerenciada pelas Forças Aeroespaciais Russas (VKS), continham dados detalhados sobre a localização e os movimentos de tropas americanas, ativos de aliados regionais e posições navais em todo o Oriente Médio. Entre as informações repassadas ao regime iraniano estavam as localizações de navios de guerra e aeronaves americanas na região.

Uma investigação feita pela inteligência da Ucrânia concluiu que satélites russos realizaram, durante a troca de ataques entre EUA, Irã e Israel, pelo menos 24 varreduras de instalações militares e locais críticos em 11 países do Oriente Médio entre 21 e 31 de março, cobrindo 46 “objetos”, incluindo bases americanas, aeroportos e campos de petróleo.

Além das imagens, Moscou também transferiu ao Irã as “lições” aprendidas na invasão em curso na Ucrânia. Segundo a inteligência do Reino Unido, a Rússia compartilhou com Teerã orientações táticas sobre operações com drones, como altitudes de ataque e o número de unidades a serem empregadas em cada operação.

Durante visita ao quartel-general militar britânico em Northwood, em 12 de março, o secretário de Defesa do Reino Unido, John Healey, foi informado pelo general Nick Perry, chefe de Operações Conjuntas, de que operadores de drones iranianos estavam adotando de forma “definitiva” táticas aprendidas dos russos.

Na ocasião, Healey disse “que ninguém se surpreenderia em acreditar que a mão oculta de Vladimir Putin está por trás de algumas das táticas iranianas e, potencialmente, de algumas de suas capacidades também”.

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou, em entrevista ao podcast The Rest is Politics em 9 de abril, ter tentado alertar a Casa Branca sobre a colaboração Rússia-Irã na guerra, mas que os EUA ignoraram as evidências apresentadas por Kiev.

“O problema é que eles confiam em Putin. E isso é uma pena”, disse ele.

Em abril, o ditador Putin se encontrou com o chanceler iraniano Abbas Araqchi e elogiou o que chamou de “heroísmo” do regime islâmico na guerra contra os EUA, reafirmando o apoio a Teerã.

China avaliou enviar mais armas ao Irã

Também em abril, a imprensa americana noticiou, com base em fontes da inteligência dos EUA, que a China estava se preparando para entregar ao regime do Irã novos sistemas portáteis de defesa antiaérea conhecidos como MANPADs – mísseis lançados do ombro, capazes de abater aeronaves de baixa altitude. Segundo as fontes, Pequim estaria trabalhando para enviar o material para Teerã por meio de outros países, a fim de ocultar a origem dos armamentos.

A emissora CBS News também noticiou que funcionários da Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos avaliaram que a China estava considerando fornecer ao Irã sistemas avançados de radar X-band, tecnologia que ampliaria significativamente a capacidade iraniana de detectar drones e mísseis de cruzeiro.

Um porta-voz da embaixada chinesa em Washington negou as alegações sobre envio de material militar ao Irã, dizendo que “a China nunca forneceu armas a nenhuma parte neste conflito”.

China e Rússia negam colaboração com o Irã

Tanto Moscou quanto Pequim negam que estejam colaborando militarmente com o Irã nesta guerra. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do regime comunista, Guo Jiakun, classificou em abril os relatos de que a China estaria ajudando o Irã na guerra como “difamações infundadas”, afirmando que Pequim “sempre adotou uma atitude cautelosa e responsável quanto à exportação de itens militares”.

Do lado russo, o Kremlin igualmente negou o compartilhamento de inteligência com o Irã – posição que o enviado americano Steve Witkoff ecoou publicamente ao dizer que os russos “afirmaram que não estão compartilhando” inteligência com Teerã, embora analistas tenham interpretado a negativa com ceticismo.

@mesquitaalerta – Aqui, a informação nunca para.

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