InícioMundoCristã relata experiência de perseguição e fuga do Irã

Cristã relata experiência de perseguição e fuga do Irã

Publicado em

O Irã é um dos muitos países do mundo onde declarar-se publicamente como cristão ainda é motivo de tortura, prisão e até morte. Embora o cristianismo seja legalmente reconhecido como uma religião minoritária, sua prática é alvo constante de vigilância do regime islâmico e, entre os muçulmanos, a conversão pode ser punida com o assassinato.

Bahar Rad, uma cristã de origem iraniana que teve o nome alterado por questões de segurança, relatou à Gazeta do Povo a realidade que experimentou desde que começou sua jornada de fé e precisou deixar o país com sua família devido à perseguição.

Ela conta que sua experiência com o cristianismo começou a se desenvolver ainda na adolescência, quando seu pai se converteu por meio de um programa cristão em língua persa que passava na televisão por satélite. “A partir daquele momento, nossas vidas começaram a mudar lentamente”, disse.

A iraniana, que hoje é uma das porta-vozes da ONG Portas Abertas, cujo objetivo é apoiar cristãos em países perseguidos, destacou que os primeiros desafios em relação à fé não vieram do regime em si, mas de familiares muçulmanos, segundo ela “muito devotos”, que se opunham fortemente ao cristianismo.

Ela detalha que eles começaram a ligar para seu pai e, eventualmente, para todos os demais membros da família, na tentativa de humilhá-los e convencê-los de que tinham “traído” a cultura e a fé de seus consanguíneos. “Havia zombaria, pressão e muitas tentativas de nos forçar a voltar ao islamismo. Essas coisas foram dolorosas, mas, de alguma forma, conseguimos suportá-las”, pontuou.

No depoimento, Bahar Rad disse que seu pai, então, se conectou a uma igreja doméstica – locais secretos usados por cristãos para se reunirem em culto, que ela visitou poucas vezes devidos aos riscos à família.

“Naquela época, meus irmãos e eu ainda éramos muito jovens, então meu pai achava que era muito arriscado para nós frequentá-la regularmente. Eu só fui algumas vezes, mas ainda me lembro claramente daqueles momentos: o sussurro suave dos cânticos de adoração, a beleza de orar juntos e, ao mesmo tempo, o medo de que algo pudesse acontecer se fôssemos descobertos”, descreve a experiência.

Após esse primeiro contato, veio o impacto mais duro para ela e sua família: a prisão do pai por razões religiosas. Quando ainda era adolescente, ela o viu ser levado por 13 meses para uma prisão após ser denunciado por um informante sobre seu trabalho missionário.

Ele começou a viajar para diferentes cidades para ensinar a Bíblia e ajudar a fundar igrejas domésticas no Irã. Em um desses momentos, alguém que fingia estar interessado no cristianismo se juntou aos encontros a mando do regime e o gravou ensinando sobre a fé secretamente. Depois disso, as autoridades construíram um caso contra ele e o levaram preso.

Rad relata que essa experiência mexeu profundamente com ela, sua mãe e irmãos, que passaram a sofrer pressão constante para abandonar o cristianismo.

“Ele [o pai] foi transferido por diferentes salas de interrogatório e celas, enfrentou intensa pressão psicológica e abuso físico. Durante aquele ano, minha mãe, meus irmãos e eu vivemos em constante medo. Não sabíamos o que aconteceria com ele ou conosco. Nossos parentes insistiram para que minha mãe pensasse em nosso futuro, nossa educação, nossos empregos e a encorajaram a se divorciar do meu pai pelo bem de seus filhos”.

Segundo ela, no dia da libertação de seu pai, as autoridades disseram que se ele continuasse com as atividades religiosas, a próxima punição seria a execução.

Ameaças e vigilância constante levaram família a abandonar o Irã

Com a soltura de seu pai, Bahar Rad conta que a família começou a ser constantemente vigiada. “Às vezes, quando íamos a um parque ou shopping, recebíamos uma ligação logo depois de voltarmos para casa, de um número desconhecido, dizendo exatamente onde tínhamos estado. Ficou claro que estávamos sendo monitorados”.

Essa pressão rotineira os forçou ao isolamento e ao abandono de contatos com igrejas domésticas a ponto de decidirem fugir para um país vizinho há treze anos. Desde então, vivem como refugiados.

Segundo ela, os principais desafios do exílio são a saudade da cidade onde nasceu, família, amigos, cultura e o recomeço da vida em um lugar desconhecido como refugiado, que se mostra como um obstáculo devido aos direitos limitados, a falta de acesso a um trabalho, educação e assistência médica estáveis, além do medo constante de serem mandados de volta ao Irã.

A entrevistada denunciou ainda que deixar o país por si só não acaba com a perseguição. O regime, muitas vezes, utiliza seus recursos e contatos externos para manter o monitoramento sobre os cristãos iranianos no exterior.

Cristã iraniana acredita que a mudança de regime pode trazer a liberdade religiosa ao país

Para Rad e muitos outros cristãos que ainda vivem no Irã, uma mudança política pode abrir caminho para a liberdade religiosa.

“Por mais de quatro décadas, muitos cristãos no Irã viveram sem reconhecimento ou proteção perante a lei”, afirma. “Como cristã e iraniana, tenho esperança em um futuro onde o país experimente a verdadeira liberdade, justiça e dignidade para todo o seu povo, incluindo as minorias religiosas e, especialmente, os convertidos ao cristianismo que enfrentaram décadas de opressão”.

Segundo Rad, apesar da guerra, das dificuldades econômicas, dos cortes na internet e do trauma que as pessoas estão vivenciando, muitos iranianos permanecem esperançosos por um futuro melhor. “Um sinal encorajador é que muitas pessoas ainda desejam permanecer no país em vez de partir, o que demonstra que a esperança de mudança ainda está viva”.

O Irã ocupa a 10ª posição na Lista Mundial de Perseguição (LMP) da ONG Portas Abertas, que reúne os principais países onde professar a fé ainda é motivo de severas punições. Na classificação do levantamento, o nível de perseguição é considerado extremo e os cristãos podem sofrer vigilância do Estado, ameaças, prisões e até a morte.

@mesquitaalerta – Aqui, a informação nunca para.

Artigos mais recentes

Negativas de domiciliar para Bolsonaro apontam excesso de rigor

As sucessivas negativas aos pedidos de prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) têm sido...

Juiz federal derruba restrições do Pentágono a jornalistas nos EUA

O juiz federal Paul Friedman, do Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito...

Quase metade dos brasileiros defende impeachment imediato de Toffoli

A pesquisa AtlasIntel, divulgada nesta sexta-feira (20), mostra que 49,3% dos brasileiros defendem o...

Perseguição religiosa no Irã: relato de uma cristã

Bahar Rad, uma cristã iraniana exilada, relata a dura perseguição vivida sob o regime...

MAIS NOTÍCAS

Negativas de domiciliar para Bolsonaro apontam excesso de rigor

As sucessivas negativas aos pedidos de prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) têm sido...

Juiz federal derruba restrições do Pentágono a jornalistas nos EUA

O juiz federal Paul Friedman, do Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito...

Quase metade dos brasileiros defende impeachment imediato de Toffoli

A pesquisa AtlasIntel, divulgada nesta sexta-feira (20), mostra que 49,3% dos brasileiros defendem o...