A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, tomou posse na tarde de segunda-feira (5) como presidente interina, com um discurso em que acusou os Estados Unidos de sequestrarem Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, no que chamou de uma “agressão militar ilegítima” ao país. Enquanto ela e parlamentares eram formalmente confirmados em seus cargos, as milícias chavistas iniciaram uma onda de repressão em Caracas após divulgação de um decreto que autorizava a busca e a prisão de pessoas suspeitas de envolvimento no ataque americano no sábado.
“Venho [tomar posse] com dor pelo sofrimento que foi causado ao povo venezuelano após uma agressão militar ilegítima contra a nossa pátria”, afirmou ela, com a mão erguida, em um ato realizado na Assembleia Nacional. “Venho com dor pelo sequestro de dois heróis que temos como reféns nos Estados Unidos, o presidente Maduro e a primeira-dama deste país, Cilia Flores”.
O tom protocolarmente duro no discurso de posse, porém, contrastou com uma carta-aberta divulgada pela agora presidente interina nas redes sociais na noite de domingo. No texto, Delcy pedia que o governo de Donald Trump colaborasse com a Venezuela em uma agenda focada no “desenvolvimento compartilhado” dentro de uma estrutura de respeito ao direito internacional.
“O presidente Donald Trump, nossos países e nossa região merecem paz e diálogo, não guerra”, escreveu ela na postagem, divulgada após o republicano ameaçar um novo ataque à Venezuela se as exigências americanas, entre elas a abertura do mercado de petróleo, não fossem atendidas.
Pouco antes da posse, a área ao redor da Assembleia Nacional foi completamente militarizada. Um grande contingente de policiais, membros das Forças Armadas e milicianos aguardavam nos arredores do Palácio Legislativo Federal, no centro da capital.
Grupos paramilitares conhecidos como “colectivos” foram às ruas de Caracas, sob um estado de emergência decretado pelas autoridades no sábado, cujo os detalhes só foram conhecidos na segunda-feira, para suprimir qualquer demonstração de apoio à operação militar americana que derrubou Maduro do poder.
O texto orienta as autoridades a “determinar imediatamente a busca e a prisão de qualquer pessoa envolvida na promoção ou no apoio ao ataque armado dos EUA”.
Um ativista de direitos humanos disse ao jornal britânico Financial Times que as autoridades começaram a verificar os telefones das pessoas para encontrar algo que pudesse indicar apoio à ação americana.
O esquema de segurança inclui patrulhas, motocicletas, veículos militares e policiais armados posicionados em pontos estratégicos e nos principais acessos ao prédio do Parlamento. Segundo relatos nas redes sociais, a Direção-Geral de Contrainteligência Militar (DGCIM) está liderando a operação de segurança, coordenando a proteção do prédio do legislativo e seus arredores. Testemunhas relataram que pontos de controle e barricadas improvisadas foram erguidos, com a presença de membros dos “colectivos”. A maioria dos estabelecimentos comerciais, fechados desde domingo, seguiu sem funcionar.
O Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Imprensa da Venezuela informou que ao menos 14 jornalistas e funcionários de veículos de mídia foram presos nos arredores da Assembleia Nacional. Desse total, 13 seriam estrangeiros e nove foram libertados posteriormente. A identidade dos detidos ainda é desconhecida, disse a entidade.
Os jornalistas haviam sido autorizados a entrar na sede da Assembleia Nacional para a cerimônia de posse, mas proibidos de fazerem fotos ou transmitirem o evento ao vivo. Mais tarde, porém, as autoridades barraram a presença da imprensa no local.
O partido governista mantém amplo controle sobre o Legislativo. Nas eleições do ano passado, a aliança liderada por Maduro conquistou 256 das 285 cadeiras. A oposição, liderada por María Corina Machado, vencedora do Nobel da Paz no ano passado, optou por boicotar o pleito.
O dia transcorreu em meio a um clima de alta tensão política de Maduro, com um aumento do sentimento de vigilância constante por parte das autoridades. Desde o início da manhã de segunda-feira, diversas ruas permaneceram fechadas para veículos e pedestres, especialmente nos trechos entre o Parque Central e o Palácio de Belas Artes.
Os “colectivos” são controlados pelo ministro do Interior, Diosdado Cabello, membro linha-dura do regime chavista que também supervisiona a polícia.
O regime de Maduro é conhecido pela intensa repressão à oposição. O governo chavista já usou de violência para conter protestos e prendeu vários críticos do regime ao longo dos últimos anos. Segundo a organização Foro Penal, o país tem atualmente 863 presos políticos.
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