Os protestos no fim de semana em Minneapolis, após a morte de dois cidadãos americanos em ações conduzidas por agentes federais da ICE, a polícia migratória americana, encontraram eco — ainda que limitado — nos mercados em Nova York.
São raros os movimentos de explicitação política entre participantes do mercado, “mas hoje, assim como em 11 de setembro, é um desses dias”, diz o economista-chefe da consultoria High Frequency Economics (HFE), Carl Weinberg. “Estamos consternados com os acontecimentos que se desenrolam em Minnesota”, escreve em seu relatório diário enviado a clientes.
“Assim que a neve diminuir — hoje estamos enfrentando uma nevasca —, iremos adquirir um apito e o usaremos de forma visível e orgulhosa, em solidariedade aos cidadãos de Minnesota… e em solidariedade a todos os americanos que defendem a Constituição dos EUA, os direitos de todas as pessoas dentro de nossas fronteiras e o Estado de Direito.”
Weinberg, que, antes de fundar a HFE em 1988, passou por instituições como OCDE, Bank of Montreal e Lehman Brothers, é uma das poucas vozes a falar abertamente sobre política em Wall Street. E, neste caso específico, sobre os possíveis impactos econômicos das manifestações.
O risco mais tangível está na atividade econômica, em meio à iminência de um novo “shutdown” do governo federal americano. Isso porque a Câmara dos Representantes está em recesso e os senadores democratas já indicaram que não devem apoiar um projeto de dotações orçamentárias que destine US$ 10 bilhões para a ICE.
O economista, além disso, também observa possíveis implicações de um agravamento da instabilidade civil para os mercados financeiros. “Não é de nossa natureza prever riscos de cauda. No entanto, ao avaliar o que está acontecendo em Minnesota e a indignação nacional que está sendo desencadeada, uma instabilidade civil generalizada já não parece mais um risco de cauda”, enfatiza.
“Lembramos vividamente dos protestos pelos direitos civis dos anos 1960 e das manifestações nacionais do fim dos anos 1960 e 1970 contra a Guerra do Vietnã. Nem os mercados financeiros nem a economia foram muito afetados”, diz Weinberg. Para ele, o que de fato afetou os preços dos ativos foi a disparada da inflação e a explosão do déficit em conta corrente à medida que os déficits federais foram “inflados” para financiar os gastos com a guerra.
“Os paralelos com aquela experiência não deveriam passar despercebidos pelos formuladores de política econômica de hoje, mas parece que passam. Há muito tempo alertamos para um ressurgimento da inflação em 2026, à medida que uma demanda em rápido crescimento pressiona uma produção limitada por uma força de trabalho em retração, já em pleno emprego. A nova incógnita para os mercados é até que ponto a agitação civil pode conter o consumo em todas as faixas de renda”, afirma o economista.
Para ele, é preciso esperar para ver se o temor de uma possível disrupção econômica decorrente da incerteza política pode induzir uma realização de lucros nos ativos americanos, sobretudo nas bolsas.
“Investidores podem se mover para travar ganhos de capital elevados após um prolongado mercado de alta. Não podemos dizer que a agitação atual vá estourar a bolha das ações. Tampouco podemos dizer que não vá.”
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