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entenda a disputa pode atrasar uso militar da IA

Uma disputa entre o Pentágono e uma empresa de tecnologia dos Estados Unidos pode limitar o uso da inteligência artificial (IA) pelas forças militares americanas, justamente no momento em que essas ferramentas se tornaram centrais para operações de guerra.

O conflito envolve a Anthropic, empresa responsável pelo modelo de IA Claude, usado por órgãos de defesa dos EUA em tarefas como análise de dados de inteligência, planejamento de operações, simulações e cibersegurança.

No ano passado, o Departamento de Guerra assinou contratos com a empresa e com outras companhias do setor de inteligência artificial para acelerar a integração da tecnologia nas forças armadas americanas, em meio à corrida tecnológica com China e Rússia. Os acordos podiam chegar a cerca de US$ 200 milhões por fornecedor.

O impasse

Em janeiro, porém, o Departamento de Guerra dos EUA passou a exigir mudanças nos contratos que já estavam em vigor, para permitir que os modelos utilizados pelas forças armadas pudessem ser empregados para qualquer finalidade considerada legal. A exigência surgiu no momento em que o Pentágono ampliava o uso de IA em operações de inteligência e planejamento militar.

Informações publicadas no começo de fevereiro revelaram que o Pentágono já teria utilizado o modelo Claude na análise de dados de inteligência durante a operação realizada em janeiro na Venezuela, que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro. A revelação aumentou a tensão nas negociações em curso entre o Departamento de Guerra e a Anthropic, já que executivos da empresa não receberam com bons olhos a notícia de que o sistema havia sido empregado na condução de uma operação militar real, algo que poderia contrariar as regras internas de uso da companhia.

Após a revelação, a Anthropic passou a exigir, nas negociações, garantias de que sua tecnologia não seria utilizada em vigilância em massa dentro dos Estados Unidos nem no desenvolvimento de armas totalmente autônomas, limites previstos na própria política da empresa.

O Pentágono não gostou da reação da Anthropic e pressionou ainda mais por mudanças no contrato em vigor, defendendo que as forças armadas precisam ter liberdade para usar ferramentas consideradas essenciais para a segurança nacional.

A negociação chegou ao ponto de ruptura no fim de fevereiro, quando a Anthropic recusou a alteração contratual que permitiria o uso irrestrito do modelo, decidindo não ceder à pressão do Departamento de Guerra, que havia dado um ultimato à companhia. Sem acordo, o governo do presidente Donald Trump determinou então a suspensão do uso da tecnologia da empresa em órgãos federais e autorizou o Pentágono a iniciar a substituição do modelo em programas militares.

Punição severa

Mas a Anthropic não foi apenas substituída. Ela também foi classificada pelo governo Trump como um risco para a cadeia de suprimentos de segurança nacional, decisão que impede outras companhias que fornecem serviços à defesa dos Estados Unidos de manter qualquer relação comercial com a empresa sem autorização do governo.

A medida foi considerada incomum, já que esse tipo de classificação normalmente é aplicado contra fornecedores estrangeiros considerados ameaça à segurança americana, como os da China.

Além disso, o governo determinou que toda a estrutura federal deixasse de utilizar produtos da companhia. Agências foram orientadas a retirar o modelo Claude de sistemas ligados a contratos públicos e iniciar a migração para tecnologias de outros fornecedores. Trump estabeleceu um prazo de seis meses para que o sistema fosse totalmente substituído em programas militares e de inteligência.

Nesta semana, a Anthropic entrou na Justiça contra o governo dos Estados Unidos para tentar suspender a decisão. A empresa afirma que a classificação como risco para a cadeia de suprimentos foi abusiva, não tem base legal e pode causar prejuízos bilionários, além de comprometer contratos já em andamento com órgãos federais e empresas do setor de defesa.

Substituição e risco para o uso militar da IA

Após o rompimento, o Pentágono iniciou negociações com concorrentes da Anthropic para assumir os contratos com a pasta. A OpenAI, dona do ChatGPT, anunciou na semana passada um acordo com o Departamento de Guerra para fornecer modelos de inteligência artificial para redes usadas pela defesa dos EUA. Outras empresas do setor, como a xAI, de Elon Musk, também passaram a ser consideradas em novos projetos militares.

A troca de modelos de inteligência artificial no sistema da defesa dos EUA, porém, deve ser lenta. Ainda em meio à briga com a Anthropic, a imprensa dos EUA informou que o Pentágono estava utilizado o Claude na operação contra o Irã.

Especialistas afirmam que o confronto entre o Pentágono e a Anthropic expôs um problema estrutural na estratégia dos Estados Unidos para uso militar da inteligência artificial. Eles alertam que o episódio ocorre justamente no momento em que Washington tenta acelerar o uso da ferramenta para manter vantagem sobre China e Rússia.

Para o especialista em tecnologia e inovação Fernando Barra, autor do livro “Inteligência artificial ampliada”, o conflito entre a empresa e o governo dos EUA não deve travar o uso militar da inteligência artificial nas forças armadas americanas, mas pode limitar e atrasar, no curto prazo, o ritmo de adoção da ferramenta justamente no momento em que a velocidade tecnológica se tornou vantagem estratégica.

À Gazeta do Povo, Barra afirmou que a inteligência artificial já está integrada em áreas centrais das operações militares modernas, o que aumenta o impacto de disputas com fornecedores privados, como a que envolve a Anthropic e o Departamento de Guerra.

“Hoje a IA já entra em inteligência, ameaça, planejamento, modelagem, simulação, análise de dados classificados, ciberoperações e apoio à decisão. No conflito no Oriente Médio, autoridades americanas disseram que a IA tem sido usada para encurtar drasticamente o tempo de processamento e apoiar a identificação de ameaças, ainda com decisão final humana”, disse. O especialista avalia que a disputa entre o Pentágono e a Anthropic mostra que a inteligência artificial passou a influenciar diretamente a estrutura de poder militar.

“A IA já saiu da área de apoio e entrou no coração da arquitetura de poder militar”, afirmou.

Barra explica que o governo americano hoje depende do ritmo de inovação, da infraestrutura e dos especialistas da indústria privada para manter superioridade tecnológica, o que torna disputas com fornecedores privados um problema potencialmente estratégico. Segundo ele, se várias empresas passarem a impor restrições, encorajadas pela decisão da Anthropic, o Pentágono pode enfrentar fragmentação de fornecedores, perda de interoperabilidade entre sistemas e dependência de um número menor de parceiros, cenário que aumenta riscos operacionais em momentos de tensão.

Barra afirma que o episódio pode levar o governo americano a tentar ampliar o controle sobre o desenvolvimento de inteligência artificial para reduzir a dependência de empresas privadas e garantir acesso direto à tecnologia. Para ele, a decisão do governo Trump em classificar a Anthropic como risco para a cadeia de suprimentos mostra que a Casa Branca está disposta a usar instrumentos mais duros para evitar que fornecedores limitem o uso de sistemas agora considerados estratégicos para a segurança dos EUA.

“Se o governo entender que uma tecnologia virou infraestrutura estratégica, ele está disposto a usar instrumentos pesados para garantir acesso e disciplinar fornecedores”, disse o analista.

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