O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) interrompeu por quase seis meses a concessão de novos pedidos do Benefício de Prestação Continuada (BPC) no ano passado, gerando um represamento de cerca de 740 mil solicitações e ampliando a fila para 3 milhões de requerimentos. A suspensão ocorreu entre o fim de junho e meados de dezembro, período em que os beneficiários chegaram a cumprir etapas como perícia médica e avaliação social, mas não tiveram acesso ao pagamento.
Segundo documentos oficiais obtidos pela Folha de S. Paulo publicados nesta quarta-feira (15), a paralisação coincidiu com ajustes técnicos que estavam sendo realizados no Dataprev, a empresa que presta serviço de processamento de dados para o INSS, decorrentes de alterações aprovadas no fim de 2024 que modificaram critérios para acesso ao benefício.
A Gazeta do Povo entrou em contato com os ministérios da Previdência Social e do Desenvolvimento Social e o INSS para se pronunciarem sobre os impactos da interrupção na concessão do benefício e aguarda retorno.
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Ex-presidente do INSS joga responsabilidade da fila no ministério e rebate demissão
Segundo a apuração, a interrupção na concessão do BPC levou a uma redução artificial imediata das despesas públicas no curto prazo, já que parte dos pagamentos ficou represada. Por outro lado, a medida gerou um efeito rebote nas contas, com acúmulo de atrasados e correção monetária que aumentaram a fatura futura do governo.
Dados do INSS indicam que o passivo chegou a R$ 2,1 bilhões em apenas quatro meses, sendo R$ 287,6 milhões pagos ainda em dezembro de 2025 e R$ 1,84 bilhão quitados entre janeiro e março de 2026. Parte desses valores foi empurrada para o ano seguinte após solicitação do Ministério do Desenvolvimento Social para reorganizar o fluxo de pagamentos.
Embora o ministério sustente que “não houve insuficiência orçamentária em 2025”, relatos internos apontam preocupação com espaço no Orçamento diante da liberação simultânea de até 200 mil benefícios. Em ofício, a pasta pediu que os pagamentos fossem ajustados para janeiro de 2026 “para garantir melhor fluxo operacional”.
A origem do problema está na mudança da regra de cálculo da renda familiar, que passou a restringir descontos antes permitidos por decisões judiciais, como gastos com saúde. A nova legislação fechou essas brechas e exigiu adaptação dos sistemas, processo que levou cerca de seis meses para ser regulamentado e implementado.
Documentos internos revelam que o sistema de concessão foi desligado em 26 de junho de 2025 para pedidos feitos após essa data. “Tal medida se tornou necessária uma vez que o decreto não estabeleceu período para adaptação dos sistemas às novas regras de cálculo da composição de renda familiar”, registra memorando técnico da Dataprev.
O efeito prático foi a queda no ritmo de concessões, que passou de uma média de 64,4 mil benefícios mensais no primeiro semestre de 2025 para 38,4 mil no segundo semestre. Ao mesmo tempo, o estoque de pedidos explodiu, saltando de 191 mil em julho para 740 mil em novembro.
A retomada começou em dezembro de 2025, mas ainda em ritmo lento, com média de 30,2 mil concessões mensais até janeiro. Somente em fevereiro e março de 2026 houve aceleração, com 116,6 mil e 90,4 mil benefícios liberados, respectivamente.
Apesar de declarações oficiais de que “não houve desligamento de nenhuma ferramenta”, o próprio documento contradiz essa versão ao apontar a interrupção direta na rotina de concessão. Posteriormente, a empresa afirmou que ficaram pendentes apenas os casos que dependiam das novas regras de renda.
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