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Janela partidária fortalece PL e enfraquece União Brasil

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A poucos dias do fim da janela partidária, que se fecha nesta semana, a Câmara dos Deputados passa por uma reorganização relevante de forças. O Partido Liberal (PL), legenda do ex-presidente Jair Bolsonaro, lidera o crescimento de bancada, enquanto o União Brasil concentra as maiores perdas no período.

O levantamento mais recente mostra que, até segunda-feira (30), o PL registrava saldo positivo de 12 deputados — com 19 filiações e sete desfiliações — e já ultrapassava a marca de 100 parlamentares titulares, consolidando-se como a maior bancada da Casa. O levantamento foi divulgado pelo PL.

Na direção oposta, o União Brasil perdeu 16 deputados, resultado de 19 saídas e apenas três novas filiações. Parte dessas perdas fortaleceu diretamente o PL: nove parlamentares migraram da legenda para o partido.

Mais de 50 deputados já trocaram de partido desde o início da janela, em 5 de março. O prazo termina nesta sexta-feira (3), período em que parlamentares podem mudar de sigla sem perder o mandato por infidelidade partidária.

Para o cientista político Alexandre Bandeira, o movimento entre os partidos reflete não apenas a conjuntura atual, mas uma antecipação da disputa eleitoral. “Há uma tendência de concentração em partidos mais competitivos, que oferecem melhores condições de eleição”, afirma.

Segundo ele, o avanço da cláusula de barreira tem acelerado esse processo. Em 2026, partidos precisarão atingir desempenho mínimo nacional e eleger deputados em diferentes estados para manter acesso a recursos e estrutura. “Isso força a migração para siglas com mais capacidade de sobrevivência política”, diz.

União Brasil tenta conter debandada

Do lado das perdas, o União Brasil enfrenta maior pressão interna. Lideranças tentam conter a saída de deputados e reverter o esvaziamento da bancada.

Entre as baixas recentes está o deputado Mendonça Filho, que se filiou ao PL na quarta-feira (1º). Antes da mudança, ele chegou a divulgar uma nota defendendo o fim da federação entre União Brasil e PP.

No Paraná, o senador Sérgio Moro e sua mulher, a deputada federal Rosângela Moro, trocaram o União pelo PL no mês passado. Nesta quarta, o deputado federal Sargento Fahur também oficializou a sua filiação ao PL.

Outro movimento relevante foi a saída do deputado Alfredo Gaspar, relator da CPMI do INSS, que também deixou o União Brasil para também ingressar no PL.

Migraram ainda do União Brasil para o PL os deputados Coronel Assis, Padovani, Carla Dickson e Nicoletti, ampliando a tendência.

O líder do partido na Câmara, Pedro Lucas Fernandes, atua para atrair novos nomes e evitar mais baixas. Ainda assim, há movimentações em curso envolvendo parlamentares que negociam com siglas como PL, PSD e PSDB.

Segundo Bandeira, a federação União–PP perdeu atratividade diante das regras eleitorais, porque funciona, na prática, como um único partido nas eleições.

“A limitação de candidaturas reduz a competitividade interna, e muitos parlamentares avaliam que têm mais chances fora da federação”, afirma. Isso significa que há um número limitado de candidaturas por estado — e todos os filiados das duas siglas precisam disputar espaço dentro dessa mesma lista.

Bandeira explica que com mais gente concorrendo pelas mesmas vagas, aumenta a competição interna e diminui a chance individual de eleição. Diante disso, muitos parlamentares avaliam que, fora da federação, conseguem disputar em partidos com menos concorrência direta e, portanto, com mais chances de manter o mandato.

Centrão se reorganiza e partidos médios crescem

Além do PL, partidos do Centrão também atuam para ampliar espaço. O PSD, comandado por Gilberto Kassab, e o Republicanos, liderado por Marcos Pereira, trabalham para atrair deputados em busca de melhor estrutura e viabilidade eleitoral.

O Podemos e o MDB também se movimentam. O MDB, por exemplo, já filiou novos nomes como Juarez Costa (MT), que consolidou sua liderança regional na legenda, enquanto o PSD desponta como destino de parlamentares de siglas menores e dissidentes do União Brasil.

No Rio Grande do Sul, o PSD protagonizou um dos maiores movimentos da janela sob a influência do governador Eduardo Leite (que migrou do PSDB para a sigla). Em um ato em Porto Alegre, o partido recebeu o reforço dos deputados federais Heitor Schuch (ex-PSB) e Lucas Redecker (ex-PSDB).

O Cidadania é um dos partidos pequenos que pode perder praticamente toda a sua bancada para o PSD. A exceção tende a ser Arnaldo Jardim, que, nos bastidores, não demonstra intenção de disputar as próximas eleições. Em São Paulo, a debandada já é visível com a migração de quase toda a bancada estadual tucana e do Cidadania para o partido de Kassab, visando o fortalecimento da base de apoio à reeleição de Tarcísio de Freitas.

Apesar do avanço, o PL também registrou perdas. Ao menos quatro deputados deixaram o partido rumo a legendas como PSDB, Podemos e PRD, indicando que a movimentação ocorre em múltiplas direções.

O PSDB, por sua vez, busca retomar protagonismo e já filiou ao menos nove deputados federais. Entre os nomes está o ex-ministro do governo Luiz Inácio Lula da Silva, Juscelino Filho, que deixou o União Brasil.

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O rearranjo deve ter efeitos diretos no funcionamento da Câmara. Com bancadas maiores, partidos como o PL ampliam poder de influência em comissões, relatorias e votações estratégicas.

Embora haja concentração em algumas siglas, o Congresso não atua de forma coesa. Diferentes grupos e interesses dentro dos partidos mantêm a necessidade de negociações constantes, elevando o custo político das votações.

A janela partidária, tradicionalmente marcada por movimentos intensos — foram cerca de 120 trocas em 2022 —, volta a evidenciar uma característica estrutural do sistema político brasileiro: partidos ainda funcionam mais como instrumentos eleitorais do que como plataformas ideológicas consolidadas.

Para o cientista político Adriano Cerqueira, a janela partidária reflete tanto o cenário atual quanto uma antecipação da disputa eleitoral de 2026.

“Esse fortalecimento do PL tem relação direta com a conjuntura. É hoje a maior legenda da direita e centro-direita e se beneficia de uma candidatura competitiva no horizonte”, afirma.

Segundo ele, o partido vem consolidando um projeto político mais claro desde a última eleição presidencial. “O PL se firmou como referência no campo conservador e busca se consolidar como o partido ligado à família Bolsonaro”, diz.

Cerqueira também avalia que o enfraquecimento do União Brasil está ligado ao modelo de federação partidária. “As federações são arranjos circunstanciais, difíceis de sustentar no médio prazo. Há muitos interesses internos, o que reduz a agilidade e a coesão das decisões”, afirma.

Esquerda segura movimento para evitar perdas

No lado da esquerda, os partidos seguem uma estabilidade. O PT mantém sua bancada praticamente intacta, enquanto o PSOL reafirmou sua independência ao rejeitar uma federação com os petistas, optando por manter a aliança com a Rede. No entanto, o campo progressista vê o PSB crescer como alternativa para parlamentares de centro-esquerda.

O cientista político Adriano Cerqueira aponta que a menor movimentação de partidos de esquerda não indica estabilidade, mas cautela diante de um cenário menos favorável.

“O eleitorado está mais à direita, como já ficou claro nas eleições recentes. Isso faz com que os partidos de esquerda atuem com mais cuidado para não perder bancada”, afirma.

Segundo ele, há uma estratégia dupla. De um lado, partidos como o PT tentam crescer onde é possível — atraindo nomes e reforçando a bancada. De outro, evitam dividir demais suas forças entre várias candidaturas ou siglas, porque isso pode espalhar votos e reduzir o número de eleitos.

Na avaliação do especialista, o contraste entre os campos políticos é evidente. “A movimentação da esquerda é bem diferente da direita. Enquanto um lado expande com mais liberdade, o outro atua de forma mais defensiva”, conclui.

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