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Xi e Trump acirram disputa por influência sobre governo Lula

A disputa entre Estados Unidos e China por influência sobre o Brasil se intensificou e colocou o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no centro de um jogo geopolítico mais agressivo, em um contexto de eleições presidenciais que tende a ampliar tensões internas e externas. Nesse cenário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência, reacendeu o debate ao afirmar que o país estaria se tornando uma “colônia chinesa”.

Em entrevista à imprensa britânica na semana passada, ele afirmou que há uma crescente proximidade da gestão Lula com o regime de Xi Jinping e um consequente distanciamento em relação aos Estados Unidos. Flávio ainda disse que o Brasil poderia surgir como uma “solução” para reduzir a dependência dos EUA ao mercado chinês de terras raras e minerais críticos.

EUA são maiores investidores diretos, mas China amplia projetos

O interesse dos investidores da China no Brasil cresceu nos últimos anos. O China Global Investment Tracker, mantido pelo think tank americano American Enterprise Institute, e um estudo do Conselho Empresarial Brasil China mostraram que o Brasil se tornou o segundo principal destino dos investimentos chineses no exterior, ficando apenas atrás da Indonésia.

Um relatório da Apex Brasil, do ano passado, estimou que o aporte de capital chinês no país até 2032 deve superar os R$ 27 bilhões.

Os Estados Unidos continuam sendo o país que mais investe diretamente no Brasil, somando US$ 244,7 bilhões em 2025 – 28% do total de investimento estrangeiro, segundo o Banco Central. No entanto, Pequim vem se mostrando uma forte concorrente, com projetos bilionários focados em infraestrutura, energia e tecnologia.

O ditador Xi Jinping ao lado de Lula durante visita oficial em Pequim no ano passado. Crédito: EFE/EPA/TINGSHU WANG / POOL (Foto: EFE/EPA/TINGSHU WANG / POOL)

China domina exportações brasileiras e amplia peso na economia

A relação sino-brasileira é marcada por uma forte dependência na pauta de exportação, com destaque para as commodities. Minério de ferro, soja e petróleo respondem por cerca de 80% das exportações brasileiras ao país asiático, que também é o principal destino dos produtos nacionais, absorvendo cerca de 30% do total exportado – enquanto os EUA ficam com cerca de 10%.

Em 2025, o comércio bilateral com a China atingiu um recorde de US$ 100 bilhões, representando quase metade do superávit comercial do Brasil no ano passado.

O economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena afirma que esse fluxo comercial tem impacto direto na economia brasileira, ajudando a sustentar as reservas internacionais e influenciando a política cambial. Ele destaca, porém, que, apesar do avanço dos investimentos chineses, os Estados Unidos ainda lideram em investimento direto no Brasil, evidenciando uma disputa ativa por influência.

A economista Ingridhe de Morais Magalhães, professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), lembra que, em 2025, a demanda chinesa contribuiu para sustentar o volume exportado mesmo diante das tarifas americanas impostas por Trump para vários setores e países.

Governos Trump e Lula estão negociando acordos

A disputa entre China e Estados Unidos no Brasil vai além da economia e envolve também influência política. No último ano, Trump passou a adotar uma estratégia para conter a presença chinesa e russa na América Latina e, desde então, as duas potências intensificaram a disputa pela atenção do Palácio do Planalto.

Em janeiro, após a captura de Nicolás Maduro pelos EUA, o líder da China, Xi Jinping, ligou para Lula e defendeu a proteção dos “interesses comuns do Sul Global” e um papel conjunto de mediação em um cenário internacional “turbulento”.

O petista costuma alinhar seu posicionamento à narrativa chinesa, mas não deixou de abrir espaço para negociações com a gestão Trump, que vem pressionando o Brasil por acordos nas áreas de segurança e de minerais críticos.

Nesta sexta-feira (10), uma aproximação foi registrada. O ministro da Fazenda de Lula, Dario Durigan, anunciou que o Brasil firmará um acordo de cooperação com os EUA focado no combate ao tráfico de drogas e armas. A iniciativa, chamada MIT (Time de Interdição Mútua, em inglês), partiu de conversas entre Lula e Trump. Os países também estão conversando sobre uma proposta de cooperação no setor de minerais críticos.

Especialistas apontam que a disputa geopolítica pode aumentar a pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil, com medidas como tarifas, endurecimento regulatório ou negociações mais duras, embora ações mais radicais sejam consideradas improváveis, segundo o professor Eduardo Galvão, do Ibmec Brasília. Alexandre Uehara, coordenador de Relações Internacionais da ESPM, acrescenta que uma tentativa de forçar alinhamento pode ter efeito contrário e aproximar ainda mais o Brasil da China, inclusive por meio do Brics.

EUA atuam com postura mais pragmática na economia, mas mantêm alerta sobre Lula

A postura de Washington de manter diálogo e tentar fechar acordos com Lula não invalida as divergências políticas com Brasília.

O Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla original), ligado ao Tesouro americano, divulgou um novo relatório sobre uma investigação comercial em andamento contra o Brasil, no qual aponta práticas que descreveu como desleais. O documento cita o Pix, as vendas na rua 25 de março em São Paulo, bem como as tarifas de importação cobradas, descritas como “altas”.

Além disso, o Departamento de Estado americano voltou a falar recentemente sobre o monitoramento da situação política e jurídica no país. Em nota ao Metrópoles, em 1º de abril, a Casa Branca afirmou que acompanha “com preocupação” decisões judiciais e do governo Lula que restringem a liberdade de expressão.

A declaração surgiu no mesmo dia em que o Comitê Judiciário da Câmara dos Representantes dos EUA divulgou um relatório sobre censura e guerra jurídica no Brasil, citando o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Magalhães avalia que pode existir mais pressão e mais atrito entre EUA e Brasil devido à presença chinesa, mas não crê em uma campanha sistemática para prejudicar a economia brasileira. Segundo ela, a Casa Branca demonstrou em 2025 que usa coerção comercial mesmo sem justificativa econômica robusta, mas também mantêm interesses relevantes no Brasil com investidores, o que tende a limitar o apetite por ruptura.

“O cenário provável não é uma guerra comercial aberta, mas pressões pontuais em frentes específicas, tais como tarifas mais altas sobre produtos brasileiros em setores que Washington considere estratégicos, como aço, minerais críticos e tecnologia; resistência diplomática à participação de empresas chinesas em obras de infraestrutura, portos e redes de telecomunicações no Brasil”.

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